Ônibus que ‘chove dentro’, portas que não funcionam e janelas travadas estão entre reclamações
O canal da CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) do Consórcio Guaicurus, responsável pelo transporte coletivo em Campo Grande, registrou uma avalanche de reclamações na primeira semana de atendimento, com quase uma denúncia por hora. Entre os dias 25 de março e 2 de abril de 2025, foram contabilizadas 178 queixas em apenas oito dias, o que equivale a uma média de 22 denúncias diárias. Esse volume reflete o profundo descontentamento da população com o serviço prestado pelas empresas do consórcio, que enfrenta uma reprovação generalizada devido à má qualidade do transporte público na capital sul-mato-grossense.
Das denúncias recebidas, 134 foram enviadas por WhatsApp, 26 por formulários, 15 por e-mails, duas por ligações telefônicas e uma de forma presencial. Nas últimas 24 horas do período analisado, entre 1º e 2 de abril, o número de registros disparou, alcançando 37 reclamações. Na terça-feira, dia 2, a situação se agravou ainda mais, com mais de 60 denúncias em um único dia, quase o dobro da média diária anterior, evidenciando a insatisfação crescente dos usuários.
Os vereadores que integram a CPI destacaram as principais queixas relatadas pela população, que expõem um cenário de negligência e descaso por parte do Consórcio Guaicurus. Entre os problemas mais frequentes estão a precariedade da frota, com ônibus em condições deploráveis: há relatos de veículos onde chove internamente, elevadores para pessoas com deficiência (PCD) que não funcionam, portas que não abrem ou fecham corretamente, sistemas de ventilação inoperantes e janelas quebradas ou travadas. Além disso, a superlotação em horários de pico tem sido uma constante, tornando as viagens desconfortáveis e até perigosas. A falta de linhas, especialmente nos finais de semana e feriados, agrava a situação, deixando muitos bairros desassistidos. Os terminais de ônibus também sofrem com a ausência de manutenção, o que contribui para a sensação de insegurança entre os passageiros. Outro ponto crítico é o comportamento de alguns motoristas, que, segundo denúncias, passam direto pelos pontos de parada, ignorando os usuários.
A insatisfação com o Consórcio Guaicurus não é recente. Pesquisas locais e manifestações nas redes sociais indicam que a desaprovação ao serviço ultrapassa os 80% entre os campo-grandenses, que consideram o transporte público caro, ineficiente e indigno. A tarifa, uma das mais altas entre capitais brasileiras, contrasta com a qualidade oferecida, gerando revolta. Greves frequentes, atrasos constantes e a falta de investimento em melhorias têm alimentado a percepção de que o consórcio prioriza lucros em detrimento do bem-estar da população.
Como enviar uma denúncia para a CPI?
Os cidadãos podem contribuir com a investigação enviando suas queixas pelos seguintes canais:
– WhatsApp: (67) 3316-1514
– E-mail: cpidotransporte@camara.ms.gov.br
– Formulário anônimo: disponível no site www.camara.ms.gov.br.
Composição e objetivos da CPI
A CPI do Transporte Público é presidida pelo vereador Lívio Leite (União Brasil) e tem como relatora a vereadora Ana Portela (PL). Também integram a comissão os vereadores Júnior Coringa (MDB), Luiza Ribeiro (PT) e Maicon Nogueira (PP). A investigação, que terá cinco fases e pode resultar em um relatório encaminhado à Justiça, foca em três fatos determinados:
- A utilização de uma frota com idade média e máxima dentro do limite contratual e o estado de conservação dos veículos nos últimos cinco anos;
- O equilíbrio financeiro do contrato após os subsídios públicos concedidos pela Prefeitura de Campo Grande ao consórcio, conforme as Leis Complementares 519/2024 e 537/2024;
- A eficácia da fiscalização realizada pela Prefeitura, pela Agereg e pela Agetran sobre o serviço prestado, especialmente após o Termo de Ajustamento de Gestão (TAG) assinado com o TCE-MS em novembro de 2020.
A CPI surge como uma resposta à pressão popular por mudanças no sistema de transporte, que há anos é alvo de críticas. A população de Campo Grande espera que a investigação traga soluções concretas para um serviço essencial que, atualmente, está muito aquém das necessidades da cidade.