Passada a primeira fase da Operação Facilem Vitam, deflagrada pela Delegacia Especializada de Repressão a Roubos a Banco, Assaltos e Sequestros (Garras) no início do mês passado, o próximo passo é seguir o caminho do dinheiro movimentado pelos traficantes que vendiam cocaína no varejo em Campo Grande e também de seus contatos em Corumbá, os “atacadistas” do tráfico.
Na operação do início de fevereiro, os policiais civis do Garras identificaram um casal que atuava nas operações de compra e venda de cocaína. Só a mulher, Claudilene Teixeira de Arruda, foi presa. O marido dela, Augusto Cézar Pires da Costa, está foragido.
Em um período de 33 meses de monitoramento pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), mais de R$ 24 milhões passaram pelas contas bancárias do casal.
As contas de Claudilene e Augusto eram o destino dos pagamentos recebidos pela organização, que o Garras indica que tinha como chefes Lucas Pereira da Costa e Matheus Henrique Lemos Diniz, na prisão atualmente.
Em depoimento no Garras, Claudilene disse que o marido sabe que ela está presa, mas não soube dizer o motivo de ele não ter se apresentado aos policiais. Ela também afirmou que é dona de casa e não tem emprego e que os três filhos que estão com Augusto agora estão sob os cuidados da mãe dela.
Perguntada pelos policiais sobre as vultosas movimentações financeiras desde 2021 mesmo sem ter trabalhado neste período, ela confirmou que era Augusto quem movimentava as contas.
“A única coisa que eu fazia era sacar o dinheiro e entregar para o Augusto”, disse Claudilene aos policiais do Garras.
SIGA O DINHEIRO
Dos R$ 24 milhões movimentados pelo casal corumbaense, mais da metade, conforme os relatórios de inteligência financeira do Coaf, foi movimentada em 2023 e 2024.
Os policiais trabalham com a hipótese de o casal, apesar de movimentar grande quantia em dinheiro, ser laranja de um grande chefão do tráfico da fronteira. O casal mora em uma casa muito simples, que destoa das quantias movimentadas e também das residências dos chefões do tráfico na Capital, Lucas e Matheus, que moram em edifícios de alto padrão.
Boa parte dos R$ 24 milhões foram sacados em caixas eletrônicos e na boca do caixa, para dar liquidez às operações, acreditam os investigadores.
Augusto, que já havia sido investigado por tráfico de drogas em 2020, teve uma receita de R$ 7,014 milhões nos 33 meses analisados pelo Coaf, além de R$ 6,54 milhões em despesas no mesmo período, totalizando uma movimentação de R$ 13,5 milhões.
Apenas entre julho e novembro de 2024, ele movimentou mais de R$ 3 milhões. As entradas em suas contas foram de R$ 1,55 milhão, enquanto os débitos totalizaram R$ 1,53 milhão.
As contas de Claudilene não ficam atrás. Em dois anos, passaram pelas contas dela nada menos que R$ 10,8 milhões, mesmo ela tendo uma renda declarada de R$ 2 mil por mês. No período, foram creditados R$ 5,4 milhões, e o mesmo montante foi debitado.
FACILEM VITAM
A maioria das transações foi realizada com integrantes da quadrilha investigada pelo Garras na Operação Facilem Vitam, sendo Costa e Diniz os principais nomes.
Ambos também tinham uma vasta rede de laranjas. Segundo a investigação do Garras, entre eles, estavam a mãe de Diniz, Elizângela da Silva Lemos, o casal Raphael de Souza e Vivan dos Santos Paiva, além da jovem K. S. C., que declarou à polícia ter apenas emprestado a sua conta bancária a Diniz com a promessa de receber R$ 500 mensalmente. K. S. C. é beneficiária do programa Bolsa Família.
O casal de Corumbá recebia os pagamentos pelas cargas de cocaína enviadas a Campo Grande. Na Operação Facilem Vitam, realizada no dia 3 de fevereiro, os policiais do Garras fecharam duas biqueiras – em uma delas, havia uma pequena refinaria de cocaína.
Esses pontos de venda pertenciam ao grupo de Costa e Diniz, de onde a droga era comercializada em pequenas embalagens.
Os policiais do Garras não confirmam se a dupla enviava cocaína para outros estados, mas também não descartam essa hipótese.
A convicção dos investigadores, porém, em razão dos valores movimentados, é de que o esquema ilegal era altamente rentável. Além dos milhões de reais circulando nas contas, o grupo ostentava apartamentos em condomínios de luxo e carros de alto valor, como um Porsche Boxster, apreendido com Diniz.
Ele morava em um apartamento no 11º andar do Edifício Liège, localizado na Rua 15 de Novembro, enquanto Costa residia no 27º andar do Edifício Gaudí, na Avenida Ricardo Brandão – todos esses endereços se encontram em Campo Grande.
Conteúdo retirado do Correio do Estado.