Mato Grosso do Sul lança o Monitor da Violência Contra a Mulher, ferramenta de dados em tempo real para enfrentar a violência de gênero
Na tarde desta segunda-feira (27 de janeiro), o Salão Pantanal, no Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul, parecia mais iluminado do que de costume. Talvez fossem as telas do novo Monitor da Violência Contra a Mulher, ferramenta apresentada com pompa e circunstância pela desembargadora Jaceguara Dantas da Silva e pelo secretário de Justiça e Segurança Pública, Antônio Carlos Videira. Mas o brilho no ar tinha menos a ver com tecnologia e mais com a promessa: usar dados para enfrentar um problema que, na frieza das estatísticas, se revela brutal.
“Essa luta é coletiva, e o Monitor é uma forma de dar instrumentos para quem está no front”, anunciou Jaceguara, que deixa o cargo de coordenadora da Mulher no TJMS no final do mês.
O que é o Monitor?
Uma espécie de “painel de controle” da violência de gênero no estado. Ele cruza informações de boletins de ocorrência, processos judiciais e medidas protetivas, traçando, em tempo real, um retrato do que acontece nos 79 municípios sul-mato-grossenses. É o big data em ação, mas com uma missão bem diferente de prever tendências de mercado ou alavancar vendas.
“O Monitor não é apenas números. São vidas que precisam ser protegidas”, insistiu a desembargadora, enquanto deslizava o dedo pelo painel exibido na sala.
Com ferramentas de Business Intelligence (BI), o sistema transforma dados em gráficos e mapas que mostram, por exemplo, onde os casos de feminicídio e violência doméstica são mais frequentes. A promessa é clara: mais precisão nas políticas públicas, menos improviso na hora de agir.
Números que contam histórias
Desde 2015, Mato Grosso do Sul registrou 340 feminicídios. O pico foi em 2022, com 44 mulheres assassinadas por razões de gênero. Só no mesmo período, mais de 195 mil mulheres foram vítimas de violência doméstica. Para o secretário adjunto da Sejusp, Ary Carlos Barbosa, é impossível naturalizar os números. “Não queremos só reduzir. Queremos chegar ao mínimo possível. A violência contra a mulher não tem um número aceitável”, afirmou, em tom grave.
O Monitor também é um espelho das desigualdades: os gráficos incluem marcadores sociais como raça, gênero e faixa etária das vítimas. “É uma forma de entender onde estão os pontos mais vulneráveis e como agir”, explicou Jaceguara, antes de enfatizar que o painel está em total conformidade com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).
Tecnologia com rosto humano
Não é só a frieza dos algoritmos que sustenta o Monitor. Links diretos para medidas protetivas online e canais de apoio como a Polícia Civil e Militar garantem que o sistema não seja apenas um observador passivo. Mas, como lembrou Jaceguara, a tecnologia é apenas o ponto de partida: “Os dados nos dão poder, mas é o trabalho humano que transforma realidades.”
O juiz auxiliar do TJMS, Mário Esbalqueiro Júnior, presente no evento, ecoou o entusiasmo com um toque de cautela: “É um avanço significativo, mas precisamos garantir que ele funcione não só como um registro, mas como um motor de mudança.”
Além do lançamento
O evento também foi um adeus simbólico. Ao final da cerimônia, Jaceguara recebeu homenagens pela sua gestão e pela idealização do Monitor. Em um tom menos formal, ela brincou: “Deixo o cargo, mas continuo na luta. Uma vez ativista, sempre ativista.”
Enquanto as autoridades se revezavam no microfone, um fato parecia claro: o Monitor não é uma solução mágica, mas um passo importante em um estado onde os números da violência de gênero ainda assustam.
“Se queremos virar esse jogo, precisamos de estratégias baseadas em dados, e não em achismos”, concluiu Ary Carlos Barbosa, como quem deixa no ar um desafio para os próximos capítulos.
A cerimônia foi transmitida ao vivo, sendo possível assistir a gravação do Lançamento do Monitor da Violência Contra a Mulher no canal do Youtube do TJMS.